Quem já esperou três horas em uma cadeira da UPA de Primavera do Leste para ouvir que o problema não era urgente conhece o fenômeno sem precisar do nome técnico. Mas o fenômeno tem nome: efeito cascata. E está documentado em dados oficiais que revelam uma crise de dimensão previsível e, por isso mesmo, ainda mais preocupante.

A UPA de Primavera do Leste foi inaugurada em 2016 com capacidade projetada para servir uma cidade de 50 mil habitantes. Em 2026, Primavera tem quase o dobro. O resultado: 600 atendimentos diários em uma estrutura que não foi dimensionada para isso.

ATENDIMENTOS DIÁRIOS NA UPA DE PRIMAVERA DO LESTE (2026): 600 atendimentos/dia em estrutura projetada para cidade de 50 mil hab. Fonte: Secretaria Municipal de Saúde(dados operacionais internos, 2026).

Mas o dado mais revelador não é o volume de atendimentos: é a composição desse volume. Segundo dados da própria UPA, 78% dos casos atendidos são classificados como verde ou azul no Protocolo de Manchester, a escala de triagem utilizada em urgências brasileiras. Verde e azul significam, respectivamente, pouco urgente e não urgente — casos que deveriam ser resolvidos em uma Unidade Básica de Saúde, no atendimento de rotina, no acompanhamento do médico de família.

Esse número está em linha com o que a literatura técnica do SUS documenta para outras UPAs sobrecarregadas do Brasil: 40% a 60% dos atendimentos são de baixa ou nenhuma urgência. Em Primavera, o percentual ultrapassa a média nacional. A explicação é estrutural: quando não existe equipe de Saúde da Família no bairro, o cidadão não tem alternativa. A UPA vira o único ponto de acesso.

A consequência é um sistema em retroalimentação negativa: a UPA fica sobrecarregada com casos que não são urgência, os casos urgentes de verdade esperam mais, a imagem pública é de colapso total — quando o que está colapsado, na raiz, é a base da pirâmide. Falta atenção primária nos bairros. A UPA é a vítima visível de uma falha que começa lá trás.

O número de uma consulta médica por habitante por ano na atenção básica municipal confirma o diagnóstico. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) recomenda mínimo de 2 consultas por habitante por ano na atenção primária para garantir acompanhamento adequado das condições crônicas mais prevalentes. Primavera está na metade desse parâmetro.

Em 2025, foram realizados 96.732 atendimentos médicos na atenção primária de Primavera do Leste: uma média de 1 consulta por habitante por ano. O parâmetro recomendado pela OPAS é de no mínimo 2 consultas por habitante por ano.

A solução para a UPA lotada não está na UPA — está nos bairros. Cada equipe de Saúde da Família que funciona nos bairros reduz a pressão sobre a urgência. É o que a gestão municipal chama de ‘descompressão do sistema’: antes de ampliar a emergência, é preciso construir o que evita a emergência.