Duas cidades com praticamente o mesmo número de habitantes ajudam a revelar um dos principais desafios de um Mato Grosso que cresce acima da média e acumula riqueza: transformar essa prosperidade em desenvolvimento equilibrado dentro do próprio Estado. Tapurah tinha 14.370 moradores e Campinápolis, 15.347, segundo o Censo de 2022. Mas, enquanto Tapurah registra Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,714, considerado alto, Campinápolis tem índice de 0,538, classificado como baixo.
A diferença de 0,176 ponto pode parecer pequena, mas representa uma distância de duas faixas de desenvolvimento humano. Entre o nível baixo, onde está Campinápolis, e o alto, alcançado por Tapurah, está toda a faixa considerada média. O IDHM leva em conta renda, educação e longevidade e, embora os dados municipais disponíveis sejam referentes ao Censo de 2010, o contraste encontra respaldo em indicadores mais recentes: levantamento que reúne dados de CadÚnico, IBGE, Siconfi e Índice de Gini coloca Campinápolis como o terceiro município mais pobre de Mato Grosso.
A desigualdade não se restringe a municípios distantes entre si. No Vale do Rio Cuiabá, seis cidades estão entre as dez mais pobres de Mato Grosso: Barão de Melgaço, Acorizal, Jangada, Santo Antônio de Leverger, Poconé e Rosário Oeste. Na região, 18,2% da população, 217,6 mil pessoas, vive abaixo da linha da pobreza, percentual superior aos 14,9% registrados no Estado.
O problema também aparece na capacidade dos municípios de mudar essa realidade com recursos próprios. O diagnóstico regional aponta dez cidades do Vale com baixa capacidade de investimento e sete sem autonomia financeira, com 80% de transferências. Ao mesmo tempo, Cuiabá e Várzea Grande têm peso expressivo na economia estadual: juntas, representam 19% do PIB de Mato Grosso e, segundo o levantamento, concentram 71% da arrecadação de ICMS.
Os números revelam um paradoxo. Mato Grosso está entre os estados com menor índice de pobreza do país, mas mantém diferenças profundas dentro do próprio território. O levantamento coloca o Estado como o quarto menos pobre do Brasil, ao mesmo tempo em que reconhece grande desigualdade entre regiões e municípios. Além disso, dez das 22 microrregiões mato-grossenses têm percentual de pobreza acima da média do Centro-Oeste e quatro superam até mesmo a média nacional.
O contraste mostra que o problema de Mato Grosso não está na falta de riqueza ou na ausência de crescimento econômico. O Estado produz, arrecada e se desenvolve. A questão é fazer essa força econômica chegar de maneira mais equilibrada aos municípios e se transformar em renda, educação, saúde, infraestrutura e oportunidades para a população.
O desafio do próximo governo, portanto, não será frear o Mato Grosso que funciona, mas ampliar seus resultados. Entre municípios que avançam e outros que permanecem dependentes de transferências e com baixos indicadores sociais, os números mostram que ainda existem diferentes realidades dentro de um mesmo Estado. Fazer a riqueza circular e alcançar todas as regiões é transformar crescimento econômico em prosperidade para todos os mato-grossenses.
