As investigações sobre o assassinato do advogado Renato Gomes Nery, morto a tiros em julho de 2024, em Cuiabá, revelaram um suposto esquema para impedir que um dos principais envolvidos no crime colaborasse com a Polícia Civil. A informação foi apresentada durante o julgamento de Alex Roberto de Queiroz Silva, condenado como executor do homicídio.

De acordo com o delegado Bruno Sérgio Magalhães Abreu, da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), uma das principais testemunhas da investigação afirmou que um grupo de advogados teria tentado arrecadar cerca de R$ 10 milhões para convencer o sargento da Polícia Militar Heron Teixeira Pena Vieira a permanecer em silêncio e não revelar toda a estrutura da organização criminosa.

O caso ganhou repercussão em Mato Grosso porque, segundo as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, os supostos mandantes do assassinato seriam o casal de empresários de Primavera do Leste, César Secchi e Julinere Bastos, denunciados por participação na trama que culminou na morte do advogado.

Testemunha revelou tentativa de silenciar policial

Conforme o delegado Bruno Abreu, a informação foi repassada por Kaster Huttner Garcia, considerado uma das principais testemunhas da investigação. Inicialmente preso por suspeita de envolvimento no homicídio, Kaster passou a colaborar com as autoridades e forneceu detalhes considerados fundamentais para o avanço das apurações.

Segundo o relato, Heron vinha sofrendo forte pressão para não revelar quem seriam todos os envolvidos no planejamento e na execução do crime.

Durante o julgamento, o delegado afirmou que a testemunha relatou que um grupo de advogados estaria reunindo aproximadamente R$ 10 milhões para impedir que o policial militar revelasse toda a cadeia de comando responsável pelo assassinato.

Heron colaborou com a investigação

Bruno Abreu destacou ainda que um dos fatos que mais chamou a atenção da equipe foi a decisão do sargento Heron Teixeira de colaborar com a investigação.

Conforme a Polícia Civil, Heron confessou participação no esquema criminoso e apontou o envolvimento de outros investigados. As investigações indicam que ele teria atuado como intermediador da organização, recebendo recursos financeiros, providenciando armamento e contratando Alex Roberto de Queiroz Silva para executar Renato Nery.

Segundo o delegado, em toda sua trajetória na polícia, raramente presenciou um integrante das forças de segurança apontar diretamente a participação de outros policiais em um crime de tamanha repercussão.

Executor destruiu provas

Durante o depoimento, também foram apresentados detalhes sobre o período em que Alex Roberto permaneceu escondido em uma chácara no bairro Capão Grande, em Várzea Grande.

Segundo a principal testemunha da investigação, o condenado confessou ter queimado as roupas, o capacete e o telefone celular utilizados no homicídio para eliminar provas. Apenas um par de tênis teria sido preservado.

As investigações também apontam que Alex realizava treinamentos de tiro na propriedade antes da execução, utilizando uma baia existente na chácara para aperfeiçoar os disparos.

Primeiro condenado

Alex Roberto de Queiroz Silva foi condenado a 33 anos e 8 meses de prisão, em regime fechado, tornando-se o primeiro dos denunciados pelo assassinato de Renato Nery a ser julgado. Além da pena de prisão, a Justiça determinou o pagamento de indenização equivalente a 40 salários mínimos aos familiares da vítima.

Enquanto isso, seguem tramitando os processos envolvendo os demais investigados, incluindo o casal de Primavera do Leste apontado como mandante do crime, caso que continua sob acompanhamento da Justiça e do Ministério Público.