A audiência realizada na Câmara Municipal de Primavera do Leste na noite da sexta-feira, 07, colocou novamente a Saúde Pública no centro do debate político, mas também deixou evidente que o Vira Saúde passou a ocupar um espaço que vai além da área administrativa: tornou-se um dos principais pontos de confronto entre a gestão municipal e parte da oposição na Câmara.
Durante a audiência, o vereador Eraldo Fortes apresentou questionamentos à secretária municipal de Saúde, Laura Leandra. As perguntas foram respondidas com informações, números e explicações sobre as ações desenvolvidas pela pasta.
Mesmo diante dos esclarecimentos, porém, o vereador manteve o tom crítico em relação ao Vira Saúde e chegou a demonstrar incômodo até mesmo com a denominação adotada para o programa.
O programa foi criado com a proposta de ampliar o acesso da população aos serviços de saúde, reduzir demandas reprimidas e aproximar os atendimentos dos moradores. A segunda etapa, anunciada pela administração municipal, amplia ainda mais essa estratégia, com a realização de cirurgias eletivas e procedimentos voltados, entre outras áreas, à saúde da mulher e à cirurgia geral.
Diante disso, a discussão poderia estar concentrada em números, metas, qualidade dos serviços e resultados. Mas o debate político acabou ganhando espaço.
Quando resultado vira disputa política
Uma das críticas apresentadas durante a audiência foi a classificação do Vira Saúde como uma espécie de ação de caráter midiático.
A afirmação, entretanto, levanta outra reflexão: quando um programa deixa de ser apenas anúncio e passa a colocar pacientes dentro do sistema de atendimento, realizar consultas, exames e procedimentos, até que ponto ele pode ser tratado apenas como marketing?
É legítimo que vereadores fiscalizem, questionem gastos, cobrem resultados e apontem falhas. Aliás, esse é um dos papéis fundamentais do Legislativo.
Mas também é legítimo perguntar se a fiscalização está sendo feita sobre os resultados concretos da política pública ou se o debate está sendo contaminado pela disputa política.
O discurso e a presença na ponta
Outro ponto que merece reflexão é a presença dos próprios agentes políticos nas ações desenvolvidas pela Secretaria de Saúde.
O vereador Eraldo Fortes construiu sua atuação pública também a partir de um discurso de defesa da Saúde. Entretanto, segundo a percepção exposta durante o debate político, sua presença nas ações e mutirões realizados pela Secretaria não teria a mesma frequência de suas manifestações críticas.
A questão, portanto, não é impedir a crítica. É saber se quem fiscaliza também acompanha de perto aquilo que está sendo realizado.
Porque conhecer a realidade de uma unidade, conversar com pacientes, acompanhar um mutirão e observar o funcionamento dos serviços na ponta pode oferecer uma perspectiva diferente daquela construída apenas a partir dos discursos políticos.
Vira Saúde 2.0 aumenta a pressão
A apresentação dos resultados do Vira Saúde e o lançamento da segunda etapa colocam a administração do prefeito Sérgio Machnic diante de uma nova responsabilidade: transformar os anúncios em resultados cada vez mais perceptíveis para a população.
Ao mesmo tempo, quanto mais o programa avançar, maior será também a cobrança sobre a oposição e sobre os vereadores que fazem críticas à iniciativa.
Afinal, se existem problemas, eles precisam ser apontados. Se existem falhas, precisam ser corrigidas. Mas, se os resultados aparecem, também precisam ser reconhecidos.
É justamente aí que a discussão deixa de ser apenas política e passa a ser uma questão de coerência.
Quem ganha quando a Saúde funciona?
A pergunta que fica após a audiência talvez seja mais simples do que parece.
Se o Vira Saúde consegue reduzir filas, ampliar atendimentos, realizar exames e procedimentos e levar os serviços para mais perto da população, quem efetivamente perde com isso?
A resposta deveria ser ninguém.
Saúde Pública não deveria ser uma disputa entre governo e oposição. O paciente que espera por uma consulta, um exame ou uma cirurgia não está interessado em saber qual grupo político será creditado pelo resultado. Ele quer ser atendido.
E é justamente por isso que o debate sobre o Vira Saúde precisa ser acompanhado com atenção.
A administração deve continuar apresentando números e resultados. A Secretaria deve continuar prestando contas. A Câmara deve fiscalizar. E os vereadores devem continuar cobrando.
Mas, acima de tudo, a população precisa estar no centro da discussão.
Porque, no final, se o programa realmente estiver conseguindo fazer aquilo a que se propôs, o mérito não deveria ser apenas do prefeito, da secretária ou da equipe da Saúde.
Será, principalmente, de quem está esperando há meses por atendimento e finalmente conseguiu ser atendido.
E talvez essa seja a questão que a audiência deixou no ar: o debate político deveria ser sobre quem criou o Vira Saúde ou sobre quantas pessoas ainda precisam esperar por atendimento?
Para o paciente, a resposta parece bastante óbvia.
