A campanha do ex-prefeito de Poxoréu, Nelson Paim, candidato a deputado estadual, começa a produzir um curioso contrassenso político justamente no município onde ele atualmente mora, tem empresa e pretende buscar votos para chegar à Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
Empresário e político de respeito, em uma fala de campanha, Paim estabelece o que chama de “Primavera versus Poxoréu” e apresenta um verdadeiro placar entre os dois municípios. Na avaliação do candidato, Poxoréu levaria vantagem em praticamente todos os quesitos apresentados: saúde, lazer, educação, asfalto, infraestrutura, contas públicas e planos de cargos e carreiras para os servidores.
O argumento central utilizado por Paim é de que a diferença não estaria na arrecadação, mas na capacidade de administrar os recursos públicos.
“Não é questão de arrecadar mais, é questão de gestão com o dinheiro público”, afirma o candidato ao comparar os dois municípios.
Politicamente, entretanto, a estratégia levanta uma questão que vai além da discussão sobre qual cidade realizou mais obras.
Se Poxoréu é apresentada pelo próprio candidato como referência superior em praticamente todos os setores da administração pública, como essa narrativa será recebida pelo eleitor de Primavera do Leste, justamente o eleitor que Paim precisa convencer a votar nele?
Essa é a contradição que o discurso acaba produzindo.
Paim constrói sua trajetória política a partir da experiência como prefeito de Poxoréu, onde efetivamente deixou sua marca administrativa e possui legitimidade para defender os resultados alcançados durante sua gestão. O problema aparece quando essa experiência é transformada em uma comparação direta com Primavera do Leste.
Ao dizer que Poxoréu fez mais saúde, mais lazer, mais educação, mais asfalto e mais infraestrutura, o candidato não está apenas apresentando seu currículo. Ele está fazendo uma crítica política à administração de Primavera.
E essa crítica precisa necessariamente ser acompanhada de uma segunda pergunta: qual é, afinal, o projeto de Nelson Paim para Primavera do Leste?
O “placar” de Paim
Na gravação, o candidato enumera os setores e atribui a vantagem sucessivamente a Poxoréu.
Saúde: Poxoréu.
Lazer: Poxoréu.
Educação: Poxoréu.
Asfalto: Poxoréu.
Infraestrutura: Poxoréu.
Contas em dia: Poxoréu.
Planos de cargos e carreiras para os servidores: Poxoréu.
Ao final, Paim lança a provocação: “Agora você imagina o que esse gestor faria com Primavera do lado dele.”
É justamente nessa frase que está a principal tentativa de conversão eleitoral do discurso.
Paim parece dizer ao eleitor: se consegui fazer isso em Poxoréu, imagine o que poderia fazer em Primavera.
Mas o caminho escolhido para chegar a essa conclusão passa primeiro por afirmar que Poxoréu fez melhor que Primavera.
E aí surge o dilema.
Poxoréu como currículo ou como concorrente?
Politicamente, existe uma diferença significativa entre apresentar Poxoréu como currículo administrativo e colocá-la como contraponto a Primavera do Leste.
Na primeira situação, a mensagem é positiva: “Administrei Poxoréu, obtive resultados e quero levar essa experiência para a Assembleia Legislativa.”
Na segunda, a narrativa é muito mais arriscada: “Poxoréu fez mais que Primavera“.
Para um candidato que pretende conquistar votos em Primavera, a segunda construção pode provocar exatamente a reação contrária à desejada.
O eleitor pode perguntar:
“Se Poxoréu é melhor em praticamente tudo, por que eu deveria votar em alguém que parece estar mais identificado com Poxoréu do que com Primavera?”
Não é uma questão de proibir Paim de defender sua trajetória. Muito pelo contrário. Sua experiência como gestor é justamente um dos principais ativos de sua candidatura.
A questão é política: onde está a prioridade do candidato?
Duas cidades, duas realidades
Outro ponto que precisa ser considerado é que Primavera do Leste e Poxoréu possuem realidades bastante diferentes.
Primavera tem população próxima de 100 mil habitantes, enquanto Poxoréu possui uma população muito menor. São municípios com estruturas urbanas, demandas, arrecadações e necessidades administrativas distintas.
Portanto, simplesmente contar obras, unidades de saúde ou quilômetros de asfalto pode produzir uma comparação superficial.
Uma avaliação realmente objetiva teria que considerar indicadores como investimento por habitante, tamanho da população atendida, arrecadação per capita, extensão da malha urbana, número de servidores, demanda por saúde e educação e custo de manutenção dos serviços públicos.
Isso não invalida os resultados apresentados por Paim em Poxoréu. Apenas demonstra que “quem fez mais” não necessariamente significa “quem administrou melhor” quando se comparam municípios com dimensões e desafios diferentes.
O fator Nova Poxoréu
Há ainda uma particularidade territorial que torna a comparação mais complexa.
A região de Nova Poxoréu concentra milhares de moradores que possuem uma relação cotidiana muito intensa com Primavera do Leste. São pessoas que, embora estejam vinculadas territorialmente a Poxoréu, utilizam diariamente o comércio, os serviços e diferentes estruturas de Primavera.
Isso significa que Primavera não atende apenas a população oficialmente contabilizada dentro de seus limites.
Na prática, a cidade funciona como polo regional e recebe diariamente uma população flutuante que também pressiona os serviços públicos, o comércio, o trânsito, a saúde, a educação e a infraestrutura.
É mais um elemento que precisa ser levado em conta antes de transformar os dois municípios em um simples placar de “quem fez mais”.
O eleitor de Primavera é o alvo
No fundo, a questão não é Poxoréu contra Primavera.
É sobre qual mensagem Nelson Paim pretende levar ao eleitorado de Primavera do Leste.
O candidato mora em Primavera e busca votos na cidade. Portanto, precisa convencer o eleitor primaverense de que sua experiência administrativa em Poxoréu pode se transformar em representação política para Primavera e para toda a região.
Nesse contexto, talvez seja mais eleitoralmente eficiente apresentar Poxoréu como prova de sua capacidade de gestão, e não como uma cidade que aparece sistematicamente à frente de Primavera.
Porque, quando o candidato diz que Poxoréu venceu o “placar” em saúde, lazer, educação, asfalto e infraestrutura, ele acaba colocando o eleitor de Primavera diante de uma escolha simbólica:
Poxoréu ou Primavera?
E essa talvez seja justamente a pergunta que o próprio candidato não pretendia fazer.
Não dá para pisar em dois muros
A política, especialmente em eleições proporcionais, exige identificação.
O candidato precisa dizer ao eleitor quem pretende representar, quais são suas prioridades e qual projeto pretende defender.
Paim tem uma história política construída em Poxoréu. Agora, ao morar em Primavera e buscar votos na cidade, precisa construir uma ponte entre essas duas realidades.
O problema é que uma campanha baseada no conceito “Primavera versus Poxoréu” pode dificultar essa ponte.
Porque, se Poxoréu aparece como vencedora em todos os quesitos, o eleitor de Primavera pode perfeitamente perguntar:
“E nós? Onde estamos nessa conta?”
Talvez o grande desafio de Nelson Paim nesta eleição não seja provar que foi um bom prefeito de Poxoréu. Isso faz parte de sua trajetória e pode ser apresentado como credencial.
O desafio será convencer o eleitor de Primavera de que o gestor que ele afirma ter sido tão eficiente em Poxoréu agora está disposto a colocar essa experiência a serviço de Primavera, sem transformar as duas cidades em adversárias.
No fim das contas, talvez o verdadeiro placar que Paim precise apresentar não seja Primavera versus Poxoréu.
Será Paim e seu projeto para Primavera.
E esse é um placar que ainda precisa ser apresentado ao eleitor.
