A MT-130, no trecho entre Primavera do Leste e Paranatinga, voltou ao centro do debate regional diante das críticas ao serviço prestado pela concessionária Rota dos Grãos, chamada por usuários, de forma irônica, de “Rota dos Milhões”, em referência aos valores arrecadados com pedágio.
A rodovia é estratégica para o escoamento da produção agrícola de Mato Grosso e conecta dois importantes polos regionais: Primavera do Leste e Paranatinga. Diariamente, o trecho recebe fluxo intenso de carretas carregadas de grãos, além de ônibus escolares, ambulâncias, trabalhadores e moradores que dependem da via para deslocamentos essenciais.
Concessão e promessas
Desde o início da concessão, a expectativa era de melhorias estruturais, recuperação completa do pavimento, manutenção contínua e mais segurança para os usuários. No entanto, passados alguns anos, motoristas relatam que as intervenções realizadas têm sido pontuais e insuficientes.
Operações de tapa-buraco e remoção de trechos da massa asfáltica são frequentemente registradas, mas condutores afirmam que, mesmo em pontos onde houve recapeamento recente, o asfalto já apresenta falhas, ondulações e desgaste precoce. Em vários segmentos, há buracos profundos, remendos irregulares e trechos com a pavimentação praticamente destruída.
Um ponto que chama a atenção dos usuários é a diferença nas condições da via dentro e fora do perímetro urbano. Na área urbana de Primavera do Leste, a rodovia apresenta melhores condições, com trechos descritos como “um tapete”. Porém, ao deixar o perímetro urbano, os problemas se multiplicam: buracos, desníveis e desgaste acentuado passam a fazer parte da rotina de quem segue viagem. Para motoristas, a concentração das melhorias na área urbana reforça a percepção de descaso com quem utiliza o restante do trecho.
Relatos de quem vive a estrada
Motoristas ouvidos pela reportagem relatam prejuízos constantes.
“Não tem viagem que a gente faça sem medo de estourar um pneu ou quebrar a suspensão”, afirmou um caminhoneiro que percorre o trecho semanalmente transportando grãos. Segundo ele, além do risco de acidentes, os custos com manutenção aumentaram significativamente.
Na sessão da Câmara, a vereador Rubia Longhi cobrou em tribuna, um posicionamento por parte da concessionária. Ela falou principalmente a respeito do escoamento da produção rural, comprometida pelas más condições.
Já um produtor rural destacou que o problema vai além do desconforto. “Aqui passa ambulância, passa ônibus escolar. É vida humana em risco todos os dias.”
Motoristas de veículos de passeio também reclamam. “A gente paga pedágio caro e não vê retorno. Tem trecho que parece estrada abandonada”, relatou uma moradora da região.
Pedágio: valores e impacto
Ao longo do trecho, há duas praças de pedágio, uma nas proximidades de Primavera do Leste e outra antes da chegada a Paranatinga. Usuários afirmam que os valores cobrados são elevados, especialmente para veículos de carga.
No caso de caminhões de nove eixos, comuns no transporte de grãos, o custo da viagem se torna ainda mais significativo, já que a tarifa é multiplicada pelo número de eixos. Transportadores afirmam que o impacto recai diretamente no custo do frete e, consequentemente, na cadeia produtiva regional.
Motoristas argumentam que o valor pago não corresponde à qualidade da infraestrutura oferecida. “Se fosse uma pista duplicada, bem sinalizada, pavimento novo, a gente até entendia. Mas do jeito que está, é difícil aceitar”, comentou outro condutor.
Críticas públicas e cobrança de providências
As críticas ganharam ainda mais repercussão após manifestação do presidente da Associação Mato-Grossense dos Municípios (AMM), Leonardo Bortolin.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, ele foi enfático: “MT-130, isso aqui não é uma estrada, é uma armadilha paga. Aqui o cidadão está sendo assaltado duas vezes. A primeira, na cobrança do pedágio. Na segunda, no risco de vida ocasionado nessa rodovia.”
Bortolin também destacou a importância estratégica da rodovia e classificou a situação como inadmissível. “Esse trecho é um dos principais corredores de escoamento da produção agrícola. Aqui trafegam ônibus escolares, ambulâncias, caminhões levando as riquezas do campo, todos correndo risco de vida devido à irresponsabilidade e à incompetência na gestão desse trecho.”
Outro ponto levantado por ele é a implantação do sistema de cobrança automática “free flow” em diversos pontos da concessão. “Se a pessoa deixar de pagar uma vez que passou, a multa é quase R$ 200. E em troca, ela está entregando este serviço”, criticou.
O presidente da AMM afirmou ainda que pretende procurar a agência reguladora estadual e o Ministério Público para relatar os fatos. “É inadmissível, é inaceitável a irresponsabilidade da concessionária com os cidadãos mato-grossenses”, declarou.
Fiscalização e expectativa
A situação tem provocado manifestações de lideranças políticas e regionais, que defendem maior rigor na fiscalização do contrato de concessão.
Para quem depende diariamente da MT-130, o sentimento é de frustração. A rodovia, considerada um dos principais corredores logísticos da região, segue marcada por buracos, remendos e insegurança — enquanto o custo para trafegar por ela pesa cada vez mais no bolso de quem produz, transporta e precisa simplesmente ir e vir.
