Um relatório parcial da Polícia Federal, no âmbito da Operação Sisamnes, revela a atuação central do lobista mato-grossense Andreson Gonçalves de Oliveira em um suposto esquema de corrupção e tráfico de influência envolvendo servidores do Superior Tribunal de Justiça. Morador de Primavera do Leste – MT, Andreson encontra-se preso em Brasília, onde as investigações avançam sobre a complexa rede de negociação de decisões judiciais.
De acordo com a PF, documentos e diálogos obtidos ao longo da investigação detalham como o lobista mantinha contato direto com servidores ligados a gabinetes de ministros do STJ. A atuação, segundo os investigadores, incluía desde a intermediação entre advogados interessados em decisões favoráveis até o acompanhamento detalhado da elaboração de decisões judiciais.
No centro do esquema, Andreson exercia o papel de articulador. Cabia a ele conduzir tratativas iniciais, monitorar a confecção de minutas, desde a elaboração até a publicação, e garantir que valores negociados fossem repassados de forma dissimulada aos envolvidos.
Um dos principais nomes citados no relatório é o do ex-servidor do STJ Márcio José Toledo Pinto, que foi exonerado e posteriormente indiciado junto ao lobista. Ele atuou em gabinetes das ministras Isabel Gallotti e Nancy Andrighi, e foi preso novamente nesta semana em desdobramento da operação.
As investigações apontam que Márcio era responsável por elaborar minutas de decisões judiciais que, de forma irregular, eram compartilhadas com Andreson antes mesmo da assinatura e publicação oficial. Em um dos casos analisados, envolvendo um recurso originário da Justiça de Mato Grosso, a PF identificou que a minuta foi criada e alterada dentro do sistema do STJ e, posteriormente, enviada pelo lobista via aplicativo de mensagens.
A perícia técnica reforçou as suspeitas. Metadados dos arquivos digitais compartilhados por Andreson com o advogado Roberto Zampieri indicavam “Márcio” como autor dos documentos, estabelecendo o vínculo direto entre o servidor e o material vazado.
Relação próxima e indícios de vantagens indevidas
O relatório também destaca a relação de “proximidade e intimidade” entre Andreson e Márcio. Conversas extraídas do celular do ex-servidor revelam trocas pessoais e familiares, além de menções a negócios atribuídos ao lobista, como um resort que, embora registrado em nome de terceiros, seria ligado a ele.
Ainda segundo a PF, Márcio teria tentado dificultar as investigações ao apagar previamente dados armazenados em seu celular, incluindo conversas com o próprio Andreson, sua esposa e outros contatos ligados ao grupo investigado.
Movimentações financeiras também estão sob análise. Comprovantes de depósitos envolvendo empresas ligadas ao lobista, como a Florais Transportes, e companhias associadas à família do ex-servidor reforçam a hipótese de pagamento de vantagens indevidas.
Outro nome citado nas investigações é o de Daimler Alberto de Campos, chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti. Em mensagens analisadas, Andreson o classificava como “amigo”, sugerindo acesso a informações privilegiadas dentro da Corte.
A Operação Sisamnes segue em andamento, e a Polícia Federal não descarta novos desdobramentos. O caso lança luz sobre possíveis fragilidades no sistema judicial e reforça a necessidade de mecanismos mais rigorosos de controle e transparência nas altas instâncias do Judiciário brasileiro.
