Uma cidade que produz soja para o mundo não consegue oferecer médico de família para quatro em cada dez moradores. Este é o retrato da saúde pública de Primavera do Leste em abril de 2026, segundo dados oficiais do e-Gestor Atenção Básica, sistema do Ministério da Saúde que monitora a cobertura da atenção primária em todos os municípios brasileiros.

A cobertura potencial de Atenção Primária à Saúde (APS) de Primavera do Leste é de 62,03% — a mais baixa da Regional Sul do Mato Grosso e uma das piores do estado. Para entender o que esse número significa na prática: cada ponto percentual abaixo de 100% representa um grupo de cidadãos que não tem equipe de Saúde da Família no bairro. Em Primavera, esse grupo tem nome: são aproximadamente 36 mil pessoas que, quando adoecem, não têm para onde ir além da Unidade de Pronto Atendimento.

COBERTURA DE APS EM PRIMAVERA DO LESTE (MARÇO DE 2026)62,03% — a pior da Regional Sul do MTFonte: e-Gestor Atenção Básica, Ministério da Saúde, janeiro de 2026

O comparativo regional é devastador. Lucas do Rio Verde, município de porte semelhante no norte do estado, opera com 94,99% de cobertura — quase 33 pontos percentuais acima. Campo Verde, com metade da população de Primavera, ultrapassou os 100% de cobertura com suas 14 equipes. Até Rondonópolis, cidade quatro vezes maior, mantém 84,27% — 22 pontos acima de Primavera.

MunicípioPopulaçãoEquipes ESFCobertura APSDiferença vs. Primavera
Primavera do Leste96.0061762,03%
Lucas do Rio Verde95.79225+2eAP94,99%+32,96 p.p.
Campo Verde49.05314+2eAP107%+44,97 p.p.
Sorriso124.66527+3eAP81,41%+19,38 p.p.
Rondonópolis263.70862+2eAP84,27%+22,24 p.p.
Mato Grosso (média)95,02%+32,99 p.p.
Brasil (média)98,62%+36,59 p.p.

O problema não é de agora, está na aritmética de uma década. Primavera cresceu 63,47% em doze anos, enquanto a rede de equipes de Saúde da Família praticamente não acompanhou esse crescimento em termos relativos. Em 2010, com 52 mil habitantes, a cidade tinha cerca de 10 equipes de ESF. Em 2026, com quase o dobro da população, tem 17 — um crescimento de 70% nas equipes para um crescimento de 85% na população.

O Ministério da Saúde autoriza o município a ter até 46 equipes de Saúde da Família — o chamado teto federal. Primavera utiliza apenas 37% desse teto. Ou seja, há autorização do governo federal para mais do que dobrar a rede atual. O que faltou, ao longo de uma década, foi planejamento e execução para ocupar esse espaço.

Cada equipe de Saúde da Família em Primavera atende, em média, 5.647 pessoas — mais do que o dobro dos parâmetros recomendados pelo Ministério da Saúde (2.750 pessoas por equipe). Em Lucas do Rio Verde, a média é de 3.831 pessoas. A sobrecarga das equipes em Primavera não é exceção — é a regra.

Para a Secretaria Municipal de Saúde, o diagnóstico é conhecido. “A rede foi construída para uma cidade que deixou de existir”, resume a Secretária de Saúde, Laura Leandra. Em números: entre 2022 e 2026, a população cresceu de 63 mil para 96 mil — mas o número de equipes só passou de 14 para 17. O déficit se aprofundou enquanto a cidade crescia.

O efeito prático desse desequilíbrio é visível nas filas da UPA, nos postos que não têm agenda disponível, nas consultas de rotina que nunca acontecem. Hipertensos sem acompanhamento, diabéticos sem controle, gestantes sem pré-natal completo. A atenção primária não é o serviço mais glamouroso da saúde pública — mas é o que evita que tudo o mais colapse.

Fontes: e-Gestor Atenção Básica / Ministério da Saúde (janeiro de 2026); IBGE — Estimativas populacionais 2025; Nota Técnica nº 301/2022-CGESF/DESF/SAPS/MS (parâmetros de cobertura por equipe).