Já dizia o velho ditado: muita gente prefere amaldiçoar a escuridão a acender uma vela. Talvez essa frase ajude a explicar parte do debate que se instalou em torno do programa Vira Saúde, lançado há menos de dois meses pela gestão do prefeito Sérgio Machnic, por meio da Secretaria Municipal de Saúde de Primavera do Leste.
É claro que a saúde pública tem problemas. Sempre teve. Filas, reclamações, dificuldades estruturais e demandas reprimidas fazem parte da realidade dos municípios brasileiros. Negar isso seria desonesto. Mas também seria injusto ignorar iniciativas que buscam enfrentar essas dificuldades.
Mas neste pouco mais de um mês de funcionamento, o Vira Saúde passou a oferecer atendimentos em horários diferenciados, manteve ESF’s aberto e ampliou o acesso da população a estruturas como o Centro de Especialidades Oswaldo Cruz. Há números sendo apresentados, há relatos positivos de usuários e há uma tentativa concreta de reorganizar parte da assistência.
Isso significa que o programa é perfeito? Evidentemente que não. Significa apenas que ele merece ser avaliado com equilíbrio. E é justamente nesse ponto que surge o questionamento. Não seria mais produtivo discutir aperfeiçoamentos do que simplesmente desqualificar a iniciativa?
Nas sessões da Câmara Municipal, alguns vereadores, quando não se calam sobre o tema, utilizam a tribuna para fazer críticas contundentes ao programa. Entre eles, o vereador Sérgio Crocodilo tem se destacado como uma das vozes mais ácidas contra o Vira Saúde.
A crítica, por si só, não é problema. Muito pelo contrário. Fiscalizar é uma das principais atribuições do Legislativo. Cobrar resultados, denunciar falhas e exigir melhorias fazem parte do mandato conferido pelo eleitor.
Mas fiscalizar também exige coerência.
Outro ditado popular ensina que “vão-se os dedos, ficam os anéis”. Os governos passam, mas determinadas posturas permanecem. O ex-prefeito Leonardo Bortolin deixou a administração municipal, mas seu então líder de governo, hoje vereador, mantém uma postura firme de contestação à atual gestão. Curiosamente, os problemas da saúde que hoje motivam discursos inflamados também existiam no passado, sem despertar críticas com a mesma intensidade.
Ao mesmo tempo, chama a atenção o fato de que outros parlamentares têm adotado uma postura diferente. Vereadores como Gislaine Yamashita, Karla da Saúde, Herbert Viana, Marcondes, Sargento Telles, Irmão Rogério, Marco Aurélio e Maria do Supercompras reconhecem que há falhas a serem corrigidas, mas admitem que a saúde municipal está caminhando e que avanços vêm sendo registrados, inclusive visitando as ações e as repartições de Saúde municipal.
Não se trata de concordar integralmente com a gestão. Trata-se de reconhecer que é possível criticar sem negar os acertos, assim como é possível elogiar resultados sem deixar de apontar problemas.
Afinal, qual é o verdadeiro papel do vereador? Apenas apontar erros ou também contribuir com sugestões, propostas e caminhos para melhorar aquilo que ainda não funciona como deveria?
A oposição é legítima. A fiscalização é indispensável. O contraditório fortalece a democracia. Mas transformar toda iniciativa em fracasso antes mesmo que ela amadureça pode dar a impressão de que o alvo deixou de ser o problema para se tornar quem está tentando resolvê-lo.
E talvez seja justamente aqui que caiba a adaptação de mais um velho ditado popular. Costuma-se dizer que “pau que bate em Chico, bate em Francisco”, numa defesa da igualdade de critérios. Mas, neste caso, a sensação que fica é outra: pau que bate em Chico continua batendo em Chico.
Enquanto isso, longe dos discursos e das disputas políticas, a população segue esperando aquilo que realmente importa: menos vaidade, menos politicagem e mais compromisso com resultados. Porque, no fim das contas, o cidadão não quer saber quem recebe os aplausos ou os créditos. Ele quer apenas encontrar uma porta aberta, ser atendido com dignidade e ter a certeza de que a saúde pública está, de fato, funcionando cada vez melhor.
