A divulgação da decisão que autorizou a deflagração da Operação Gomorra continua repercutindo em Mato Grosso e trouxe novos detalhes sobre as suspeitas investigadas pelo Ministério Público Estadual contra a administração municipal de Campo Verde (100 quilômetros de Primavera do Leste – MT).

Entre os exemplos citados nos relatórios do Núcleo de Ações de Competência Originária (NACO), um dos casos que mais chamou a atenção envolve a compra de uma torneira. Conforme a investigação, um equipamento avaliado em cerca de R$ 75 foi adquirido pela Prefeitura por R$ 1.625, valor aproximadamente 2.166% superior ao preço de mercado.

Além do suposto superfaturamento, os investigadores apontam que o produto contratado seria de um modelo premium, enquanto o material efetivamente entregue ao almoxarifado municipal correspondia a uma versão básica, levantando suspeitas também sobre a execução do contrato.

Na decisão que autorizou as buscas realizadas no dia 1º de julho, o desembargador Jorge Luiz Tadeu Rodrigues afirma que os elementos reunidos pelo Ministério Público “descortinam um cenário de espoliação sistêmica do erário municipal”, destacando que o prejuízo mínimo já identificado ultrapassa R$ 1.023.454,33.

As apurações, entretanto, indicam que os contratos investigados podem alcançar cifras muito maiores. Segundo o NACO, há indícios de irregularidades que envolvem aproximadamente R$ 29 milhões em contratos públicos, incluindo aquisição de materiais com valores supostamente inflacionados, desvio de cerca de 70 mil litros de combustível para abastecimento de veículos particulares e pagamentos por locações de veículos e bens que, conforme a investigação, sequer existiriam.

Prefeito é apontado como figura central

Na decisão judicial, o desembargador afirma que, dentro da estrutura investigada, “no núcleo político-administrativo, a figura central é o prefeito Alexandre Lopes”, apontando indícios de que ele teria utilizado sua posição de comando para permitir a execução dos contratos considerados fraudulentos.

O magistrado destaca ainda que Alexandre Lopes assinou contratos apontados pela investigação como derivados de atas de registro de preços supostamente viciadas, circunstância que fundamentou o cumprimento dos mandados de busca e apreensão tanto na Prefeitura quanto em sua residência.

Conforme os investigadores, o núcleo político-administrativo seria integrado ainda pelo secretário municipal de Obras, Rubens Anunciação Júnior, e pela servidora Olivete Gardim, enquanto o chamado núcleo empresarial seria formado por cinco empresários ligados a oito empresas, sendo seis delas sediadas em Cuiabá.

Prefeito nega irregularidades e diz que Prefeitura iniciou apuração

Em nota e durante manifestações públicas após a operação, o prefeito Alexandre Lopes negou qualquer participação em irregularidades e afirmou que confia na elucidação dos fatos ao longo das investigações.

O gestor também declarou que a própria Prefeitura de Campo Verde determinou a realização de uma auditoria interna para identificar possíveis situações que extrapolassem questões meramente administrativas. Segundo Alexandre Lopes, a iniciativa de aprofundar as apurações partiu da própria administração municipal, com o objetivo de verificar eventuais inconsistências e colaborar com os órgãos de controle.

As investigações da Operação Gomorra seguem em andamento. Os fatos ainda serão analisados pela Justiça, e os investigados terão assegurado o direito ao contraditório e à ampla defesa durante o processo.