Mato Grosso chegou a 2025 com alguns dos piores indicadores de violência contra a mulher do Brasil. Em meio a quase 10 mil registros de lesão corporal doméstica em apenas um ano, chama atenção a recorrência de acusações envolvendo o próprio governador Otaviano Pivetta e homens escolhidos para ocupar postos estratégicos na estrutura responsável pela segurança pública e pelo enfrentamento desse tipo de crime.

Os feminicídios representam a face mais extrema de um problema muito maior. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostram que 53 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso em 2025. No mesmo ano, foram registradas 241 tentativas de feminicídio, 9.954 lesões corporais em contexto de violência doméstica, 3.720 ocorrências de violência psicológica, 2.970 de perseguição e 18.876 ameaças contra mulheres. Houve ainda 2.292 registros de descumprimento de medidas protetivas.

A dimensão aparece também na comparação com o restante do país. Mato Grosso teve a terceira maior taxa de feminicídio do Brasil, com 2,7 casos por 100 mil mulheres, quase o dobro da média nacional, de 1,4. Nas tentativas de feminicídio, aparece em segundo lugar, com taxa de 12,5 — mais de três vezes a nacional e 38,7% superior à registrada no estado no ano anterior. Mato Grosso também apresentou a segunda maior taxa do país tanto de lesão corporal doméstica contra mulheres quanto de violência psicológica.

É nesse cenário que acusações envolvendo integrantes da própria estrutura de poder do Estado ganham relevância. Pivetta foi indiciado pela Polícia Civil de Santa Catarina, em 2021, por suspeita de lesão corporal contra a então esposa, após uma ocorrência em Itapema. Ele negou a agressão. Posteriormente, a Justiça de Mato Grosso concedeu medida protetiva à ex-companheira em outro episódio, relacionado a relatos de ameaça e violência psicológica. O inquérito referente a esse segundo episódio foi arquivado pelo Ministério Público de Mato Grosso por falta de provas.

As acusações alcançaram também nomes escolhidos para postos de comando da Segurança Pública. O coronel César Roveri, que comandou a Sesp no governo Mauro Mendes, foi denunciado em 2021 por uma ex-companheira, capitã da Polícia Militar, por supostas agressões psicológicas, ofensas e exposição de sua intimidade. À época, o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher chegou a pedir ao Governo do Estado a revogação de sua nomeação para a chefia da Casa Militar. Posteriormente, já como secretário de Segurança, Roveri passou a figurar institucionalmente entre os responsáveis pelas políticas estaduais de enfrentamento à violência contra a mulher.

Thiago Vinicius Pinheiro da Silva, que ocupou a Secretaria Adjunta de Administração Sistêmica da Sesp na gestão Roveri, também foi alvo de acusações. Em 2019, uma ex-namorada o acusou de estupro e agressão no Distrito Federal, caso que resultou na concessão de medida protetiva e no anúncio de sindicância pela Corregedoria da PM de Mato Grosso. Thiago negou as acusações. Anos depois, seu nome apareceu ainda em uma notícia de fato sobre possíveis assédios morais e sexuais contra mulheres no Ministério da Justiça. Em 2023, a 2ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal não homologou o arquivamento e determinou novas diligências para esclarecimento dos fatos.

Mais recentemente, Pivetta nomeou o delegado Rodrigo Bastos da Silva para a Secretaria Adjunta de Segurança Pública, cargo que ocupa atualmente. Bastos foi alvo, em 2024, de uma ocorrência de violência doméstica, registrada sob o número 2024-230739, com relato de supostas agressões física e psicológica. O caso foi encaminhado à Delegacia Especializada de Defesa da Mulher e também motivou procedimento de apuração na Corregedoria da Polícia Civil.

Enquanto Mato Grosso acumula indicadores elevados de violência contra mulheres, os recursos destinados à segurança pública recuaram. Segundo o Anuário 2026, o estado teve a segunda maior redução de investimentos em segurança do país em 2025: queda de 10,9%, na contramão da média das unidades da Federação, que aumentaram os gastos em 6,2%. Na subfunção policiamento, a redução foi de 27,5%, a maior registrada no Brasil, com os valores passando de R$ 515,8 milhões em 2024 para R$ 374,1 milhões em 2025.