O primeiro capítulo judicial de um dos crimes mais impactantes da história recente de Mato Grosso será escrito nesta quarta-feira, 15, quando o Tribunal do Júri de Cuiabá inicia o julgamento de Alex Roberto de Queiroz Silva, apontado pelo Ministério Público como o homem que executou o advogado Renato Nery, morto a tiros em frente ao próprio escritório, em Cuiabá.
O julgamento marca o início da responsabilização criminal dos seis denunciados pelo homicídio que, segundo a Polícia Civil e o Ministério Público Estadual, teria sido cuidadosamente planejado e financiado em razão de uma disputa milionária por uma propriedade rural localizada no município de Novo São Joaquim.
Embora Alex seja o primeiro réu a enfrentar o Tribunal do Júri, as investigações apontam que ele teria atuado apenas como executor de um esquema muito mais amplo.
Casal de Primavera do Leste é apontado como mandante
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público, os empresários César Jorge Sechi e Julinere Goulart Bastos, moradores de Primavera do Leste, são apontados como os mandantes intelectuais do assassinato.
Segundo a acusação, ambos teriam interesse direto na disputa judicial envolvendo uma fazenda localizada em Novo São Joaquim. Renato Nery atuava no caso e sua atuação jurídica, conforme sustenta o Ministério Público, contrariava interesses econômicos relacionados à propriedade.
A denúncia afirma que o crime foi encomendado mediante pagamento e executado por meio de uma cadeia de intermediação que envolveu policiais militares. A defesa dos empresários nega qualquer participação no homicídio.
Como o crime aconteceu
As investigações da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) apontam que Alex Roberto aguardou a chegada do advogado nas proximidades do escritório, localizado na Avenida Fernando Corrêa da Costa, em Cuiabá.
No momento em que Renato Nery desembarcava do veículo, o acusado teria efetuado diversos disparos de arma de fogo e fugido em uma motocicleta.
Toda a ação foi registrada por câmeras de monitoramento e as imagens passaram a integrar o conjunto probatório utilizado pela Polícia Civil durante a investigação.
Renato Nery chegou a ser socorrido, mas morreu dias depois em decorrência dos ferimentos.
Participação de policiais militares
A denúncia também atribui papel fundamental a policiais militares da Rotam.
Entre eles está Heron Teixeira Pena Vieira, apontado como responsável por recrutar o executor.
Outros policiais também foram denunciados por suposta participação na organização e na execução do plano criminoso.
Segundo o Ministério Público, a estrutura montada demonstra divisão de tarefas entre mandantes, intermediários e executor, caracterizando um homicídio premeditado.
O que será julgado
Nesta primeira etapa, os jurados decidirão exclusivamente sobre a responsabilidade criminal de Alex Roberto de Queiroz Silva.
Durante o julgamento deverão ser ouvidas cinco testemunhas de acusação:
- os delegados Bruno Sérgio Magalhães Abreu e Caio Fernando de Albuquerque;
- o escrivão Davi Padilha Nogueira;
- Kaster Huttner Garcia;
- Lívia Moreira Gomes Nery, filha da vítima.
As demais ações penais envolvendo os outros denunciados terão tramitação própria.
Caso ganhou repercussão estadual
Desde a execução do advogado, em julho de 2024, o caso mobiliza forças policiais, Ministério Público e Poder Judiciário.
A investigação revelou uma complexa rede de relações envolvendo empresários, policiais militares e interesses ligados a uma disputa fundiária milionária.
O julgamento desta terça-feira representa o primeiro teste das provas produzidas durante quase dois anos de investigação e poderá servir como parâmetro para os futuros julgamentos dos demais acusados.
